O Que Fazer Para Não Morrer

01/08/2012

Caminhando de volta para casa na noite da última terça-feira ao lado do namorido, logo depois de assistirmos ao filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (que é muito bom, por sinal), eu lamentava o fim de mais uma franquia, ao mesmo tempo em que demonstrava preocupação. E  minha explicação para o namorido do motivo da minha preocupação é que originou esse post.

É bem simples e eu achava que todo mundo fazia isso: eu leio livros e assisto filmes e séries para não morrer, oras! Isso não é evidente?  Mas vou tentar explicar para quem não pegou a sutileza da parada.

Quando eu lia Harry Potter, logo nos primeiros livros, eu cheguei à uma brilhante conclusão: eu não podia morrer antes de saber o final daquela história. Mais tarde, comecei a acompanhar Lost na televisão e era óbvio que eu não poderia morrer sem entender o que se passava naquela ilha (eu não morri, a série acabou e, mesmo assim, algumas coisas da série ninguém entendeu, nem mesmo os roteiristas).

Com o tempo, fui me viciando em outras histórias, literárias ou audiovisuais, que, por suas estruturas episódicas, me obrigavam a esperar o lançamento de capítulos futuros. Claro que eu não poderia morrer antes de descobrir o final dessas histórias, afinal, se eu morrer, acabou-se tudo, inclusive o resto do mundo, não?

Então, é por isso que eu leio e assisto a filmes e séries: para me manter vivo!

Ao explicar isso ao namorido, ele, com sua sutileza peculiar e uma cara que sempre faz quando quer dizer algo solene, me disse apenas uma frase:

“Você me preocupa, deveria procurar um analista!”

Poxa, ninguém me entende!
😦

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Precisamos Falar Sobre o Kevin

30/01/2012

Baseado no livro homônimo de Lionel Shiver, Precisamos Falar Sobre o Kevin é um daqueles filmes incômodos, que nos acompanham mesmo depois que os créditos sobem, as luzes se acendem e você sai do cinema. Um filme sobre a natureza humana que, muitas vezes, não tem nada de bonitinha.

O filme da diretora escocesa Lynne Ramsay utiliza-se de flashbacks para contar a história de Eva Khatchadourian, a mãe do Kevin do título. Vivida magistralmente por Tilda Swinton, inexplicavelmente esquecida pelo Oscar nesse ano, Eva aparentemente nunca teve uma relação maternal com o filho. Sabe aquele sentimento de amor incondicional que é sempre atribuído às mães? O que Eva sempre sentiu foi um estranhamento, principalmente ao se dar conta de que, desde pequeno, Kevin vivia uma verdadeira disputa com ela. Dessa forma, é interessante notar que o conceito de família feliz de comercial de margarina não é o que vemos na tela, já que a única família feliz existente ali é a que mora na cabeça de Franklin (John C. Reilly), o marido e pai da família.

Já Kevin é retratado, desde pequeno, como um sociopata em miniatura. O jovem, que aparentemente utiliza-se da máxima de dividir para conquistar, leva a mãe a seus limites, adotando uma postura terrível quando vista numa criança. Os atores que vivem o personagem – Rock Duer, quando pequeno, e Ezra Miller, quando adolescente – seguram bem a peteca, não ficando intimidados ao lado de Tilda Swinton, nos convencendo da veracidade daquela história, que poderia muito bem ter acontecido em qualquer lugar do mundo.

Fugindo do estereótipo de famílias funcionais e felizes, capazes de tudo pelo bem estar mútuo, Precisamos Falar Sobre o Kevin quebra o tabu ao mostrar algumas famílias que podem sim ser reais, mesmo que os sentimentos apresentados na tela sejam aqueles que ninguém tem coragem de externar. Afinal, apesar de isso soar como blasfêmia para os defensores da moral e da família, muitas vezes, os laços de parentesco são apenas sangue e nada mais.

Eu, que já havia lido e adorado o livro, tenho um sério problema com filmes baseados em livros. Apesar de saber que são mídias diferentes contando a mesma história, não consigo simplesmente não comparar. Então, sinto falta de determinadas partes, me incomodo quando algum detalhe é sutilmente distorcido e, pior, tenho dificuldade em aceitar quando um ator não corresponde à imagem mental que eu tinha de determinado personagem. Coisa de gente chata, admito. O filme é bom, mas ainda prefiro o livro, com sua história mais rica em detalhes, principalmente àquela que mais interessa, que é o massacre em si, que fica apenas sugerido no filme.

Foi Precisamos Falar Sobre o Kevin que me apresentou à Lionel Shiver e à sua obra. Além do história do pequeno psicopata, a autora tem lançados no Brasil outros dois livros: O Mundo Pós-Aniversário e Dupla Falta. O primeiro ainda não li, mas já está na minha lista. Já o segundo retrata com maestria a história de um relacionamento entre dois atletas do mundo do tênis, desde aquele momento em que duas almas se encontram e sentem-se predestinadas a permanecerem juntas, até o doloroso fim quando ambos se dão conta de que não viviam uma parceria e sim uma disputa de egos. Mais um excelente livro da autora, que toca numa ferida que muitas vezes insistimos em fingir que não existe.

Precisamos Falar Sobre o Kevin, livro e filme, são obras excelentes e que fazem pensar. Mas que não são indicadas para qualquer um. Afinal, muita gente prefere viver num mundo colorido, ignorando o cinza que está à nossa volta. Se você não faz parte desse clube, tenho certeza: irá apreciar!

OBS: Pois é, pode ser que, vez por outra, eu agora comente aqui o que tenho assistido e lido por aí. Só pra não perder o hábito de brincar de resenhar. Coitados de vocês. 😉