Arte

17/07/2012

Gosto muito de teatro. Aquela coisa de ver os atores de pertinho, encenando o texto e você ali, praticamente participando de toda a ação, me fascina. Apesar disso, tenho ido menos ao teatro do que gostaria. Teve uma época em que namorido e eu íamos quase que toda a semana ao teatro, graças aos inúmeros cupons que adquiríamos nesses sites de compra coletiva e que barateiam tanto os ingressos. Sei lá porque, deixamos de comprar as entradas pro teatro e estávamos indo mais ao cinema.

Já havíamos ouvido falar de Arte há um tempo, talvez desde que a montagem carioca chegou aos palcos. Os inúmeros cartazes de divulgação da peça pelo metrô e o oba-oba em cima de Yasmina Reza pesaram na vontade de conferir e foi assim que acabamos comprando os cupons para conferir a montagem com Marcelo Flores, Vladimir Brichta e Claudio Gabriel no Teatro Leblon. Como assisti recentemente ao filme Deus da Carnificina, baseado na peça de mesmo nome de Yasmina Reza, esperava um bom espetáculo. O que vi em cena me surpreendeu tanto, que mesmo dias depois de ter ido ao teatro, ainda estou com a peça na cabeça.

A história acompanha três amigos e traz como ponto de partida uma singela pergunta: o que é arte? Tudo isso desencadeado porque um dos amigos,  Sergio (Claudio Gabriel), compra um quadro branco com listras brancas pela bagatela de R$ 200 mil. Marcos (Marcelo Flores) não consegue entender como alguém pode gastar tanto dinheiro numa tela branca (com listras brancas) e arrasta o amigo Ivan (Vladimir Brichta) para uma verdadeira espiral verborrágica entre os três amigos, numa discussão sem fim.

O que começa apenas como uma discussão sobre o que é ou não arte, descamba para uma fascinante análise do universo masculino e do que é e mantém uma amizade. Com tiradas divertidíssimas e atores bem competentes em cena, Arte chega ao ápice em seu final, quando você já não faz ideia de como aquela história poderá terminar. O que acontece, inclusive, de forma inspiradora.

Pra completar o programa, só saindo da sala Marília Pêra, do Teatro Leblon, e se entregando a uma orgia salivar, comendo vários deliciosos pastéis no Bar do Adão que fica ali, no mesmo complexo onde estão os teatros. Com a melhor companhia do mundo para comentar a peça e apreciar os pastéis, não há como não amar.

A nota mental é que eu aproveite mais o teatro. Apesar de adorar filmes e cinema, não posso perder o hábito de me divertir com essa arte que tanto aprecio.

Próxima peça: o musical O Mágico de Oz, atualmente em cartaz no Teatro João Caetano. Aí vou eu!


Precisamos Falar Sobre o Kevin

30/01/2012

Baseado no livro homônimo de Lionel Shiver, Precisamos Falar Sobre o Kevin é um daqueles filmes incômodos, que nos acompanham mesmo depois que os créditos sobem, as luzes se acendem e você sai do cinema. Um filme sobre a natureza humana que, muitas vezes, não tem nada de bonitinha.

O filme da diretora escocesa Lynne Ramsay utiliza-se de flashbacks para contar a história de Eva Khatchadourian, a mãe do Kevin do título. Vivida magistralmente por Tilda Swinton, inexplicavelmente esquecida pelo Oscar nesse ano, Eva aparentemente nunca teve uma relação maternal com o filho. Sabe aquele sentimento de amor incondicional que é sempre atribuído às mães? O que Eva sempre sentiu foi um estranhamento, principalmente ao se dar conta de que, desde pequeno, Kevin vivia uma verdadeira disputa com ela. Dessa forma, é interessante notar que o conceito de família feliz de comercial de margarina não é o que vemos na tela, já que a única família feliz existente ali é a que mora na cabeça de Franklin (John C. Reilly), o marido e pai da família.

Já Kevin é retratado, desde pequeno, como um sociopata em miniatura. O jovem, que aparentemente utiliza-se da máxima de dividir para conquistar, leva a mãe a seus limites, adotando uma postura terrível quando vista numa criança. Os atores que vivem o personagem – Rock Duer, quando pequeno, e Ezra Miller, quando adolescente – seguram bem a peteca, não ficando intimidados ao lado de Tilda Swinton, nos convencendo da veracidade daquela história, que poderia muito bem ter acontecido em qualquer lugar do mundo.

Fugindo do estereótipo de famílias funcionais e felizes, capazes de tudo pelo bem estar mútuo, Precisamos Falar Sobre o Kevin quebra o tabu ao mostrar algumas famílias que podem sim ser reais, mesmo que os sentimentos apresentados na tela sejam aqueles que ninguém tem coragem de externar. Afinal, apesar de isso soar como blasfêmia para os defensores da moral e da família, muitas vezes, os laços de parentesco são apenas sangue e nada mais.

Eu, que já havia lido e adorado o livro, tenho um sério problema com filmes baseados em livros. Apesar de saber que são mídias diferentes contando a mesma história, não consigo simplesmente não comparar. Então, sinto falta de determinadas partes, me incomodo quando algum detalhe é sutilmente distorcido e, pior, tenho dificuldade em aceitar quando um ator não corresponde à imagem mental que eu tinha de determinado personagem. Coisa de gente chata, admito. O filme é bom, mas ainda prefiro o livro, com sua história mais rica em detalhes, principalmente àquela que mais interessa, que é o massacre em si, que fica apenas sugerido no filme.

Foi Precisamos Falar Sobre o Kevin que me apresentou à Lionel Shiver e à sua obra. Além do história do pequeno psicopata, a autora tem lançados no Brasil outros dois livros: O Mundo Pós-Aniversário e Dupla Falta. O primeiro ainda não li, mas já está na minha lista. Já o segundo retrata com maestria a história de um relacionamento entre dois atletas do mundo do tênis, desde aquele momento em que duas almas se encontram e sentem-se predestinadas a permanecerem juntas, até o doloroso fim quando ambos se dão conta de que não viviam uma parceria e sim uma disputa de egos. Mais um excelente livro da autora, que toca numa ferida que muitas vezes insistimos em fingir que não existe.

Precisamos Falar Sobre o Kevin, livro e filme, são obras excelentes e que fazem pensar. Mas que não são indicadas para qualquer um. Afinal, muita gente prefere viver num mundo colorido, ignorando o cinza que está à nossa volta. Se você não faz parte desse clube, tenho certeza: irá apreciar!

OBS: Pois é, pode ser que, vez por outra, eu agora comente aqui o que tenho assistido e lido por aí. Só pra não perder o hábito de brincar de resenhar. Coitados de vocês. 😉