Pequeno Histórico da Influência da Internet na Minha Vida Amorosa

25/03/2009

amorvirtual1

“Já conheci muita gente
Gostei de alguns garotos

Mas depois de você

Os outros são os outros…

E só…”

Os Outros (Kid Abelha)

A conheci em 2002, logo depois de passar no vestibular.
Uma sala de bate papo, ambos calouros da mesma universidade.
Afinidades mil, gostos parecidos. Horas e horas no ICQ.

Do virtual pro real e uma paixão avassaladora.

Entretanto (sempre tem um entretanto), ela era noiva.
Idas e vindas; dor, muita dor. Tempos depois a oportunidade de ficarmos juntos já que o casamento (que procedeu o noivado) não dera certo.

Perdeu a graça. Vida que segue.

 

Orkut.
Irmão de uma amiga de um amigo.

Cara de pau, adiciono. Ele aceita. Vamos pro MSN. Amigos.

Tempos depois o assunto sexo e as dúvidas sexuais dele.
Do virtual pro real. Do monitor pra cama. Das palavras para o sexo.

E pela primeira vez eu completamente apaixonado por um homem. Que não se aceitava e que apesar do tesão, não ‘podia’ continuar comigo.
Sofro, sofro, sofro.
E muito tempo depois, foda-se ele! Eu mereço bem mais!

 

2008. Sala de bate papo.
Papo despretencioso e agradável, MSN trocado, algumas conversas, papo no telefone.

Do virtual pro real e conhecia assim o meu primeiro namorado, que mesmo depois que virou ex-namorado continua sendo um querido, um amigo.

 

Orkut. Lista de amigos de um cara com quem eu já havia ficado.

E então eu o vi. Lindo, olhos verdes, jeito de menino, MSN disponível no perfil, nenhuma indicação de que ele era gay.
Cara de pau, adicionei e cantei na lata. Ele riu da minha audácia, mas não me bloqueou.
Papos intermináveis, um almoço, uma amizade, um beijo, um namoro. 

Hoje, sem sombra de dúvida, o amor da minha vida.

 

Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 15/03/2009, cujo tema da semana era Amores Virtuais.
O Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


O Primeiro Beijo

18/02/2009

beijo“A língua, a saliva, os dentes
Meus olhos estão fechados
A língua, a saliva, os dentes
Meus lábios estão abertos
Agora meus olhos abriram
Meus olhos molharam
Agora seus olhos abriram
Seus olhos me olharam…”
O Beijo (Kid Abelha)

Sentado no ônibus, distraído, olhando as pessoas nas ruas.
Vejo um casalzinho jovem, mochila nas costas, aos beijos, encostados num muro.
O ônibus segue o caminho, mas sei lá porque, a cena se mantém na minha cabeça.
Não sou nenhum voyeur, mas a cena me faz viajar na minha própria história.
Mais especificamente relembro meu primeiro beijo.
Alguns momentos de nossas vidas nos marcam de certa forma, que eventualmente nos recordamos deles. Principalmente momentos que acabam se tornando tão especiais.
Meu primeiro beijo aconteceu quando eu tinha 14 anos.
E, aos 14 anos, eu não pensava muito em meninos. Sei lá, na verdade nem pensava em meninas também. Era um garoto apenas.

Adolescente é uma coisa boba demais, definitivamente.
Eu via os casais na TV, nos cinemas, nos livros e via beijos em todos os lugares. Naquela época parecia que o todo mundo beijava, menos eu.
E vivia a me perguntar como seria o meu primeiro beijo. E, mais insistentemente, quando aconteceria.
E aconteceu da forma mais ridícula possível: eu em casa, num dia à tarde, quando uma vizinha chegou e perguntou se eu queria ‘ficar’ com a Alessandra. 

Heim, como assim? Não estou entendendo!!!

Eu era apaixonado pela Alessandra, a minha vizinha de frente. E ali, do nada, a outra vizinha perguntando se eu gostaria de ficar com ela.
Nem lembro direito o que respondi, só lembro que gaguejei que sim.

Quando, que dia, que horas?

Tudo combinado para mais tarde no mesmo dia, comecei os preparativos.
Corri pro meu quarto, escolhi a melhor roupa, escovei os dentes, até me perfumei.
De tardezinha, no horário de sempre, estava na rua, com os vizinhos, brincando e jogando conversa fora. Foi quando elas apareceram e fomos todos (sim, umas seis pessoas!!!) pra uma praça próxima a minha casa.
Chegando lá que vi como tudo havia sido armado: éramos três casaizinhos de adolescentes bobos, que só queriam beijar.
Os outros dois casais logo se agarraram e sobramos Alessandra e eu, em pé, olhando um pra cara do outro.
Sem saber o que fazer, falei:

Vamos lá, né?


E aconteceu o tal do beijo.
Opinião sincera?
Foi horrível.
Não sabia o que fazer com as mãos, achei muito esquisito outra língua dentro da minha boca e, bati dentes pelo menos umas duas vezes. Eu só queria que aquilo terminasse logo pra eu voltar logo pra minha casa e amaldiçoar o maldito primeiro beijo.
Acabou, eu respirei fundo e dei tchau pra menina.
Alessandra continuou sendo minha vizinha por algum tempo, até que se mudou pra outra cidade. A paixão antiga virou amizade e até hoje mantemos certo contato.
Mas, naquele dia, no meu quarto, prometi a mim mesmo que nunca mais beijaria na minha vida.
Óbvio que não cumpri essa promessa.
Voltei ao presente, sentado no ônibus e me peguei quase gargalhando ao lembrar dessa situação que podia ter sido traumatizante.
E tentei me lembrar do meu primeiro beijo num homem. Lembrei! E, assim como o meu primeiro ‘primeiro’ beijo, não foi nada bom.
Mas descobri que a prática é a melhor professora e que beijar é uma delícia, quando se sabe o que está fazendo e se está com uma pessoa especial. Ainda bem que sou insistente! Pois hoje sei o quão gostosa é a sensação de sentir outra boca junto à minha!


Olhares

23/09/2008

“Vou te contar, os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho…”
Wave (Tom Jobim)

Amigos, não tenho feito absolutamente NADA nessas férias.
Tem sido um enorme período de ociosidade (que estou adorando por sinal).
Mas esse ócio não está sendo criativo e eu ando sem inspiração.
Por isso, deixo com vocês esse conto que escrevi anos atrás.
Gosto dele, apesar de todos os clichês.
Detalhe, ele já foi publicado numa coletânea de contos de um concurso estadual aqui do RJ.
Espero que gostem.

O OLHAR EM DUAS VIDAS

Anos 50. As mulheres ainda eram muito recatadas e os homens muito cavalheiros. Andando pelo centro da cidade, em meio a bondes e a um insinuado progresso, ele seguia distraído. Pensava na vida, nos problemas do cotidiano, nos seus vinte e três anos.
Ainda distraído pegou o bonde. Sentou-se e desviou sua atenção para a paisagem. E ficou a pensar no tudo e no nada. Da paisagem passou a observar os passageiros. E foi então que seus olhares se encontraram.
Ela era linda. A mais linda que ele já havia visto. Estava sentada e quando se viram firmou o olhar. Era um olhar penetrante, fixo, envolvente. E ficaram assim, olhando-se. E apenas olharam-se, já que ele teve de descer no seu ponto e ela seguiu no trajeto do bonde.
Durante muito tempo ele pensou nela e lembrava-se daquele olhar. Mas com o passar do tempo, aquele olhar se transformou no que realmente era: uma lembrança de um pequeno flerte e nada mais.
Muito tempo se passou. Um dia, caminhando pelo calçadão ele estacou. Era ela. Vinha gargalhando, com um grupo de amigas, muito feliz. Era ainda a mesma garota daquele dia no bonde, exatamente como ele se lembrava.
A lembrança adormecida acordou imediatamente e tomou conta de todo seu ser. Parado no meio do calçadão, sem saber o que fazer, ele viu o grupo de garotas passar e ela ir junto, sem perceber a sua presença. Mas não importava. Somente vê-la novamente havia sido muito bom. E enquanto acompanhava com o olhar o grupo de meninas afastar-se, ela subitamente virou-se para trás. E mais uma vez seus olhares se encontraram. Não deve ter durado mais que alguns segundos, mas pareceram anos. O mesmo olhar da outra vez: penetrante, fixo, envolvente. A certeza veio naquele momento: ela lembrou-se dele. Mas seguiu seu caminho, deixando-o mais uma vez a pensar naquele olhar.
Agora a lembrança dela e de seu olhar eram freqüentes. Bastava fechar os olhos que ele conseguia visualizar o contorno do rosto e deixar-se invadir por aquele olhar que lhe causava uma sensação tão reconfortante que ele nem sabia explicar.
Quando contou pra um amigo a história, foi chamado de maluco. O amigo zombou e perguntou se ele estava apaixonado por uma mulher que ele havia visto apenas duas vezes na vida. Desconversou e riu junto. Era bobagem, claro. Apenas cruzaram o olhar, nada mais.
Ele nunca foi muito religioso. Nos seus trinta anos, passara diversas vezes na frente daquela igreja e nunca tivera vontade de entrar. Mas nesse dia sentiu uma necessidade. Eram quase dezenove horas e havia um movimento enorme na entrada da igreja; um casamento era evidente. Ele não se importou e subiu as escadas. A igreja estava belamente adornada e ele se dirigiu para os primeiros bancos. Sentou-se, olhou para o altar e só então se perguntou o que fazia ali. Foi quando a marcha nupcial começou a tocar e todos se levantaram para acompanhar a entrada da noiva. Sentiu-se ridículo: estava na cerimônia religiosa de um casamento de pessoas que ele não sabia quem eram. Levantou-se com o propósito de ir embora sem chamar atenção. Foi quando viu a noiva entrar. Num andar gracioso ela esbanjava felicidade. Ele sentiu um aperto no coração, a boca seca, uma vontade de se enfiar num buraco: era ela. Pela terceira vez se cruzavam. Ele queria ir embora, mas não conseguia se mover, apenas encarava aquela beleza que tanto o envolvia. Foi aí que ele percebeu que ela vacilou nos passos: seus olhos se encontraram. Ela continuou a caminhar, mas olhando fixamente para os olhos dele. Aquele olhar mais uma vez.
Assim que o padre começou a cerimônia ele foi embora atordoado. Como podia ficar assim por uma pessoa que nem mesmo conhecia? Aquilo era loucura e ele resolveu esquecer.
Não conseguiu.
Mas o tempo passou. Ele também se casou, viu os filhos crescerem, formarem famílias e quando a esposa faleceu se viu novamente sozinho. Agora, na velhice, não queria dar trabalho aos filhos e decidiu ir morar numa casa de repouso. Os filhos não queriam aceitar, mas ele sempre fez o que quis e dessa vez não seria diferente.
Encontrou o local ideal, um lar para esperar sua hora chegar. Mudou-se e passou a viver sua velhice como vivera sua vida até então: ativamente. Na casa de repouso havia muitas atividades para os moradores e ele se empenhava no máximo que podia.
Um dia, sentado no jardim da casa de repouso ele observou uma senhora que adentrava pelos portões. A senhora era graciosa e elegante, com andar firme e altivo. Carregava uma mala e ele se levantou para ajudá-la. Quando chegou perto e se ofereceu para pegar a mala ficou pálido: era ela. O tempo, é claro, também passara para ela, mas ele nunca se esquecera daquela feição. E quando seus olhares se cruzaram ele teve a certeza. Era o mesmo olhar das outras três vezes. O olhar que ele se lembrara por toda a sua vida.
E ali, no jardim da casa de repouso, pela primeira vez se falaram. E falaram, falaram e falaram. Contaram detalhes de suas vidas um para o outro e a conversa fluía como se fossem amigos de uma vida inteira.
Até que num momento reinou o silêncio. Mas não era um silêncio sem palavras. Era um silêncio que dizia tudo. Um silêncio sustentado pelo olhar de ambos. O olhar de duas vidas que mesmo distantes, haviam sido unidas. Por um olhar…
LFC

E vou ficando por aqui.
Mas juro que volto e em breve, com a regularidade de antes.
Beijos


O Seminarista

06/08/2008

Não sei precisar o ano ou qual a minha idade na época.
Sei que ainda estava na faculdade e era uma época em que me divertia nas salas de bate papo da vida.
Morava com meus pais, cidade pequena e a sala de bate papo da cidade vizinha (com seus cento e poucos mil habitantes) era a que ‘bombava’ para nós, do interior.
Aquele bate papo era o ponto de encontro do pessoal da faculdade, dos adolescentes e, claro, dos gays enrustidos da cidade do interior – como eu!
Num belo dia estava naquela sala e ele apareceu. Não lembro se foi direto ou se nos perdemos em trivialidades como o tempo e as pessoas da região; só sei que começamos a conversar. Mas, claro, o interesse de ambos era sexo.
Naquela época eu tinha um msn fake e era pra lá que direcionava as fast-foda (que horrível!). Se valesse a pena e eu estivesse disposto, passava depois para o msn oficial de menino família (o único que uso hoje). E foi no msn fake que marcamos de nos encontrar.
Ele havia mentido bastante. No encontro descobri que ele morava num bairro ao lado do meu e que era mais novo do que havia dito: estava prestando vestibular, devia ter seus 19, 20 anos.
Mas, vá lá, era bonitinho. Moreno, olhos verdes, cabelos castanhos e lisos e um corpo interessante. Conversando no meu carro ele, apesar da timidez, colocou sua mão em minha coxa e ficou me acariciando um bom tempo, até que foi subindo e subindo até chegar no meu pau.
Eu, que sempre fui cagão, disse que ali não era lugar e ele não pestanejou:

-Vamos pro motel!

Fomos.
O menino sabia o que tava fazendo e, pelado, era ainda mais bonito: bunda durinha e arrebitada, corpo legal, sem ser sarado. E chupava com maestria e vontade (o que, particularmente, eu adoro).
Fudemos tanto naquele dia que eu cheguei em casa com o dia quase amanhecendo.
Como o achei gente boa (e não era uma foda de se jogar fora) o passei pro msn oficial e mantivemos contato.
Mas era um tempo atribulado de final de período na faculdade: provas e trabalhos diversos, além do meu emprego, que me consumia bastante tempo. Ou seja, apesar dos repetidos convites dele, não repetimos a dose.
Até que um dia ele sumiu. E nem me dei conta disso.
Só fui perceber um ano depois quando ele me procurou novamente e me lembrei do menino de olho verde que mandava bem no sexo (que vergonha, nem do nome do garoto eu me lembrava).
Ele então me contou o motivo de ter sumido: tinha passado no vestibular pra outra cidade, mas que não havia me esquecido.
Não deu outra, transamos novamente.
Dessa vez o menino estava bem mais solto e me pareceu que havia treinado bastante. Fez a linha Leila Lopes e se mostrou uma cachorra na cama, ainda mais que da primeira vez.
Nada, entretanto, que me deixasse apaixonado. Ele era bom, mas eu vivia uma fase em que nem cogitava relacionamento com outro homem.
Só que esqueci de falar isso pra ele e ele, que começou a me presentear. Primeiro foi um livro, depois um perfume (Fala sério! Quem dá perfume pra uma pessoa que nem conhece direito? E logo pra mim, que sou todo alérgico a algumas coisas).
Comecei a ficar preocupado até o dia em que ele disse que precisava me encontrar para me revelar um segredo.
Já fiquei paranóico, né?
Mesmo tendo transado de camisinha (sempre!), já imaginei que ele ia dizer que tinha alguma doença contagiosa.
Na hora e local combinados ele chegou, dessa vez extremamente sem graça. Eu procurei descontrair, mas estava falando nada com nada e ele resolveu começar.

-Eu não contava com isso, aliás, nunca achei que precisasse te contar isso, mas preciso… Está me matando tudo que estou sentindo. –ele começou a enrolar.
-Tá, diga logo, porque eu estou ficando nervoso já. –encorajei.
-Lembra que eu te disse que passei pra uma faculdade fora daqui e que estou estudando? Pois então. Estou fazendo Filosofia. E depois tenho de fazer Teologia. Sou seminarista! –ele falou de uma vez só.

Sabe quando você não tem o que falar?
Me deu uma vontade maluca de rir.
Nunca fui católico e de hipocrisia eu entendia bem.
Mas até pra mim, ficar com um seminarista era demais.
O problema é que eu não conseguia falar nada. Só me passavam mil perguntas na cabeça e foi aí que comecei a bombardeá-lo.

-Me conta tudo! Tem putaria no seminário? Os padres pegam vocês? Os seminaristas se pegam?

Lembrando agora, vejo o quão escroto fui com o garoto, mas eu realmente não sabia com agir.
Acabou que transamos de novo naquele dia e depois nos afastamos.
Ele voltou pro seminário onde ficava direto, por 5 meses. Só visitava a família nas férias e era nesse período que, quando possível, nos víamos.
Com o tempo fui criando uma grande afeição por ele. É uma pessoa com quem se pode contar, bom pra conversar e muito educado.
Pra fechar o pacote, trabalho e moro atualmente na mesma cidade onde fica o seminário dele.
Eventualmente nos encontramos para um café e um papo casual.
Adoro quando ele vem me visitar aqui no trabalho e os comentários do pessoal que trabalha comigo sobre ele. No mínimo acham que minha alma não tem mais salvação, pois sempre dizem:

-Você precisa de mais amigos como esse M. É um menino muito bom!

Bom?
Ô, como é bom.
Ainda me lembro, apesar de hoje sermos apenas bons amigos.

 


Das Páginas do Velho Diário (3)

28/07/2008

…Ele se levantou, deitou no meu lado na minha cama de solteiro e me beijou.

Um beijo urgente, demorado, intenso.

Os dois na estreita cama, mas não precisávamos de mais espaço. Estávamos exatamente onde e como gostaríamos de estar.

No chão, as roupas largadas. Na cama, nossos corpos nus e a descoberta um do outro.

Aquela pele alva que a cada aperto um pouco mais forte ficava vermelha me deixava ainda mais excitado. Os cabelos negros totalmente bagunçados por minhas mãos. Sua boca que passeava pelo meu corpo e me levava às nuvens por me proporcionar tamanho prazer.

O que me intrigava era que não tínhamos tido aquele papo chato do ‘curte o quê?’ tão comum na internet. Estávamos ali e um apenas esperava o outro agir para acompanhar. Não precisamos pré-estabelecer nada. Tudo aconteceu de forma natural.

 

No pós-gozo, deitados na cama e olhando pro teto, um silêncio no quarto. Em minha mente, apenas uma pergunta:

E agora?

 

Ele puxou um papo casual, vestiu sua cueca, se levantou, abriu a janela e ficou olhando pra rua. Ele falava feito uma metralhadora giratória, mas o que tínhamos feito não era o assunto em pauta.

Resolvi dar o tempo dele e fiquei deitado na cama, coberto por um lençol, olhando pro teto e fingindo prestar atenção ao que ele dizia.

 

Foi então que ele ficou quieto. Voltou-se e ainda me lembro da sua imagem: a cueca branca no corpo todo certinho naquele quarto à meia luz.

Veio até mim e me beijou novamente. E tudo recomeçou.

A noite (e o dia seguinte) foram frenéticos. Transamos várias vezes e em cada uma das vezes o prazer era maior, mais intenso.

 

No domingo à tarde, depois do almoço, ele me disse que tinha de ir embora. As despedidas de praxe na minha casa e o acompanhei até a rodoviária. No caminho, os dois em silêncio, até que ele puxou o papo:

-Cara, foi muito bom. –ele disse.

-Eu também achei. Mas, tenho de perguntar… Como ficamos agora? –eu questionei.

-Acho que como estamos. Somos amigos. Ou melhor… Que tal sermos sócios? –ele mandou.

-Sócios? Como assim?

-Sócios. Amigos que tem um segredo e uma sociedade. Me amarrei nessa idéia. –ele disse sorrindo.

 

Deixei-o no ônibus e ele fez uma última recomendação:

-Não vai contar pra ninguém, né?

 

Claro que disse que não contaria.

O ônibus dele foi embora e eu pra casa do meu melhor amigo, o que havia me falado sobre ele, meses antes, dizendo que era o meu número.

Contei tudo, com detalhes sórdidos pro meu amigo que ficou sem acreditar no que eu tinha dito.

-Você é louco, Autor! Totalmente louco! Quer dizer que o D., com aquela carinha, curte? –ele ficava repetindo.

 

A semana passou e não consegui falar com ele. Não aparecia no msn, não atendia aos telefonemas. Chá de sumiço.

Apesar de ter achado tudo excelente, já estava desencanando quando ele surgiu novamente, quase um mês depois. Disse que precisou de um tempo pra acertar as coisas na cabeça dele, mas que agora já estava tudo certo e queria me ver de novo. Acabei indo pra cidade dele e tudo se repetiu.

E entrei num ciclo meio confuso, que funcionava mais ou menos assim: ele tinha tesão e me ligava, a gente se encontrava, a gente transava, ele sumia.

Até que o mais improvável, pelo menos para mim, aconteceu: eu estava apaixonado por ele.

Fiquei desesperado, pois nunca havia me apaixonado por um homem antes e ele não era a pessoa mais indicada pra ser minha primeira paixão gay.

Só pra terem uma idéia da complexidade da situação: ele sozinho em casa num fim de semana, dei meu jeito e fui pra cidade dele. Tudo perfeito, tudo ótimo, o sexo cada vez melhor. Até que uma hora, depois do sexo, ele se senta na beira da cama e fica quieto lá. Eu, preguiçoso por natureza fiquei na minha, deitado. Quando ouvi soluços. Ele chorava quieto e murmurava:

-Eu não posso gostar disso! Eu não posso gostar disso!

 

E essa situação durou 8 meses.

Até que num dia fui surpreendido por ele, depois de um fim de semana perfeito juntos, na hora em que nos despedíamos:

-Cara, essa foi a última vez. Tô meio que gostando de uma garota aí e vamos ser apenas amigos a partir de agora. A sociedade acabou. –ele disse, meio sem graça.

-Tudo bem. –eu disse e fui embora.

 

E no caminho, chorei feito uma criança.

Doeu, eu corri atrás, disse que tava apaixonado e ele me ignorou um bom tempo.

Até que teve tesão de novo e me procurou. E depois me ignorou. E então voltou a me procurar.

Entrei numa relação doentia, em que eu era totalmente subserviente ao tesão dele. E ficava feliz com as migalhas, com o pouco que ele me dava.

 

Até que resolvi mandá-lo se fuder. Sem mim!

Carnaval, praia e, coincidentemente ele me liga dizendo que estava na mesma cidade que eu (coincidência o caralho! Meu amigo me disse depois que ele ligou perguntando onde eu passaria o carnaval). Eu estava na minha pior fase, deprimido, sem motivação pra porra nenhuma, largado na areia quando o telefone tocou e vi que era ele perguntando onde eu estava para logo em seguida aparecer ao meu lado e me chamar pra conhecer o apartamento onde ele estava hospedado, já que todos estavam na praia naquela hora.

Um amigo fez a maldita e mandou a sugestão pra mim:

-Vai, larga de ser bobo. Come ele, goza antes, deixa ele na mão e vai embora.

 

E foi o que eu fiz. E ao sair disse que a sociedade realmente tinha acabado e que era pra ele me deixar em paz.

Por um tempo ele deixou, até que passou a me perseguir. Ligar e não falar nada. Mandar emails dizendo que tava com saudade. Aparecer do nada me chamando pra tomar um chopp.

E eu, cada vez mais seco com ele. Mas sofrendo, pois tudo que eu queria era ceder, apesar de saber que tudo voltaria a ser do jeito dele, da forma que ele queria.

 

Até que no inicio desse ano eu conheci o meu atual namorado. O primeiro homem que estou namorando e que surgiu feito um furacão na minha vida. Não é bem resolvido, não é a pessoa mais simples de se entender, mas é muito mais fácil de lidar do que o D.

E eu me dei conta de que podia gostar de outra pessoa. E de que alguém poderia gostar de mim.

Assim, quando D. me ligou um dia, quando já estava namorando, eu atendi e disse:

-Estou namorando.

-Que legal! Adoro você namorando. Fica ainda mais interessante. –ele disse.

-Namorando um homem. E feliz! –mandei na lata.

– …

-Isso mesmo que você ouviu. Um homem! –enfatizei.

-Você me decepcionou. Nunca imaginei que viraria um viadinho desses… Se bem que essa história é interessante. Que dia vamos colocar chifres nele? –ele insistiu.

 

E eu desliguei o telefone.

Bloqueei e excluí do msn.

E passei a não atender nenhum telefonema com DDD 32 que aparecesse no meu celular.

 

Até que dias atrás chegou o tal email do início dessa história.

 

Dá pra me desbloquear no msn.

Preciso falar com vc.

D.

 

Contei pro namorado e ele disse:

-Mas não vai desbloquear mesmo! Mas pode responder ao email dizendo pra ele falar o que quer por email, pq também fiquei curioso.

 

Foi o que fiz.

A resposta do email?

 

Nada demais.

Apenas estou com saudade da nossa amizade, dos velhos tempos.

Estou querendo marcar de ir na sua cidade, rever seus pais, te dar um abraço.

Pode ser?

D.

 

Saudade?

Sei…

Hoje me sinto aliviado. Mesmo.

Porque tenho a plena consciência de que, pelo menos para mim, essa história é assunto encerrado.

Me traz ainda boas recordações (e outras tantas nem tão boas, que me deixam puto de raiva), mas que ficam somente na lembrança de uma história que eu, definitivamente, não quero reviver.


Das Páginas Do Velho Diário (2)

23/07/2008

Passou o natal e na semana que antecedeu o Ano Novo quase não nos falamos no msn.
Até que exatamente uma semana depois, na véspera de Ano Novo, por volta das 20h nos encontramos online novamente.

 

D. diz: E aí, ganhou muitos presentes de Natal?

Autor diz: Ah, um pouquinho… Foi um Natal legal e você?

D. diz: Também foi legal. Mas tô com a impressão que esse novo ano será melhor ainda.

 

O papo continuou e ele foi o primeiro a tocar no assunto, de uma forma não muito direta.

 

D. diz: Vai passar a virada onde?
Autor diz: Por aqui mesmo, na casa da minha namorada.
D. diz: E tá vestido como?
Autor: Ah, a bermuda é branca, mas a camisa é verde!

D. diz: Mas garanto que a cueca é vermelha! Aliás, liga a webcam. Quero ver se você tá bonito pra sua namorada.

 

Liguei a webcam e ele ficou me elogiando e dizendo que não conseguia entender a atração que sentia por mim.

Até que eu fui direto.

 

Autor diz: E vamos ficar com esse joguinho até quando? Acho que o melhor seria partir pra real e vermos como isso se desenrolaria.

D. diz: Por mim, na semana que vem está ótimo, que tal?

 

Confesso que fiquei estático, não acreditando naquilo.

Disse a ele que poderíamos marcar para a semana do dia 15 de janeiro, já que meus pais estariam pra praia e eu ficaria sozinho em casa.

Ele disse que 15 dias era muito tempo e ele podia perder a coragem. Que pelo que ele sabia, meus amigos estavam acostumados a dormir na minha casa e que ele queria ser um amigo me visitando. Se eu não teria coragem de recebê-lo com meus pais em casa.

Eu nunca tinha feito isso, de levar um cara pra casa, mas apertei o botão do FODA-SE! e disse pra ele que estava combinado então.

 

Durante a semana nos falamos todos os dias e finalmente ouvi sua voz pelo celular na quarta-feira quando ele me ligou dizendo que tinha acabado de comprar a passagem. A voz era máscula, com um lindo sotaque mineiro.

Marquei de encontrá-lo na sexta-feira, na rodoviária da minha cidade.

 

A sexta-feira demorou a passar. Nos falamos algumas vezes por telefone e a ansiedade foi tomando conta de mim.

Até que chegou o momento. Cheguei antes à rodoviária e quando seu ônibus parou e ele desceu eu estaquei. Ele era ainda mais bonito pessoalmente: altura mediana, cabelos lisos, branquinho, sorriso no rosto. Me viu e se encaminhou em minha direção. Me cumprimentou com um abraço e falou:

 

-E aí, moleque! Prazer conhecer pessoalmente! Qual vai ser a boa de hoje?

 

Fomos para o meu carro e no caminho até minha casa o assunto fluiu como se fôssemos velhos conhecidos. Entretanto, sexo não fazia parte dessa conversa.

Na minha casa, apresentei aos meus pais como um amigo e ele logo se entrosou com todo mundo.

Tomamos um banho e saímos para conversar. Detalhe: ele, minha namorada, uma amiga dela e eu.

Bebemos, comemos e por volta das 2h da manhã fomos pra casa. Deixei as meninas em casa e ao chegar no meu quarto, minha mãe tinha deixado tudo arrumado, com uma cama preparada e tudo pra ele.

Trocamos de roupa, deitamos e eu não sabia o que dizer, como agir.

E foi ele quem tomou a iniciativa depois de um longo e constrangedor silêncio.

 

-A noite foi legal, né? –ele disse.

-Sim, muito… –eu respondi.

-Mas você pensa que eu vim aqui pra sair com sua namorada e ficar de paquera com a amiga dela? –ele perguntou.

-Hum… E para que veio? –eu disse.

 

Ele se levantou, deitou no meu lado na minha cama de solteiro e me beijou.

(Continua…)


Das Páginas Do Velho Diário (1)

18/07/2008

Eventualmente, alguns defuntos que deveriam estar bem enterrados resolvem dar o ar de sua graça e surgem para nos assombrar.
Dessa vez, meu fantasma mais teimoso apareceu por email, com o seguinte recado:

Dá pra me desbloquear no msn?
Preciso falar com vc.
D.

Nos conhecemos tem alguns anos.
Lembro que era outubro e, conversando com meu melhor amigo (continua sendo, até hoje!) ele disse que tinha ido a uma festa de aniversário e descoberto que a aniversariante, grande amiga dele, tinha um irmão gêmeo.

-Amigo, você ia adorar! Seu tipo. O nome dele é D., mas acho que ele não curte. –ele me disse.

Ouvi, registrei o nome, mas mudamos de assunto.
Tempos depois, entro no msn e, milagre, ninguém online.
Entrei no orkut desse meu amigo para deixar um recado e vi um amigo dele, D., aparecendo na sua lista. Lembrei do comentário e fui fuxicar na vida da pessoa pra ver se era o mesmo.
Realmente era e realmente era o meu tipo.
Como tinha disponível o msn no orkut, adicionei na cara dura e ele estava online na hora.

D. diz: Quem é você?
Autor: Sou amigo do E., tudo bem? Conheço sua irmã também… Como estava de bobeira no orkut vi seu perfil e resolvi adicionar no msn, tem problema?
D. diz: Claro que não! Qual o seu perfil lá?

Acreditem ou não, nascia assim uma coisa que eu a princípio achei ser amizade.
Durante uns três meses conversávamos ocasionalmente falando de nossas vidas e assuntos banais. Ele sabia que eu tinha namorada e me contava os casos dele.
Até que um dia, véspera de natal, o assunto foi se aprofundando até chegar no sexo.

D. diz: Já realizou todas as suas fantasias sexuais?
Autor diz: Todas não, mas já fiz bastante coisa nessa vida.
D. diz: Acho legal isso… Mas ainda sou meio bloqueado… Tem alguns coisas que tenho vontade, mas não sei se tenho coragem de realizar.
Autor diz: Tipo??? Pode falar, a gente é amigo e não vou comentar nada com niguém.
D. diz: Já transou com outro homem? Já teve curiosidade?

E o assunto rendeu…
Menti e disse que nunca tinha estado com outro homem, mas que tinha sim a curiosidade.
Ele disse que também, mas que pra isso acontecer teria que ser com alguém que ele confiasse muito e que prometesse manter tudo em absoluto sigilo.

D. diz: Acredite ou não, apesar de não te conhecer, você me passa essa confiança. Com você eu acho que rolaria. Além do que te acho bonito e tem namorada, o que é um diferencial que me interessa.
Autor diz: Você é meio maluco, né?
D. diz: E você não?

Eu sempre fui maluco.
E não prestou muito esse papo inicial.
Era véspera de Natal, desconectamos para passar a data com nossas respectivas famílias, mas fiquei com aquela conversa na mente.
Não nos conhecíamos pessoalmente, morávamos em cidades diferentes, mas ele me atraía. Era uma coisa diferente.
E eu pagaria para ver até onde isso daria.

(continua…)