Do Que Pode ou Não Ser Verdade

07/02/2011

O calor insuportável, o suor escorrendo, o corpo mole, a preguiça. Na verdade, apenas mais uma sexta feira de fevereiro no Rio de Janeiro. Em casa, sentado de cueca na frente do computador, pensava que dali a pouco precisava se encontrar com os amigos pela Lapa, o point definitivo daquele grupo tão díspar e, ao mesmo tempo, tão homogêneo. Farinha do mesmo saco, ele pensava. Amigos, ele tinha certeza.

Atrasado, depois de duas duchas, teve sua atenção despertada pela tela do computador. Um nick conhecido e uma pequena conversa seguida de um sutil convite que saberia não ser aceito, seguido de um adeus e de um ‘se decidir ir, me liga, tô saindo!’. Fecha o computador e sai, antes mesmo de qualquer resposta.

No elevador, o susto. O telefone tocando, o convite aceito, as mãos suadas e todo o desânimo indo embora como que por encanto.

E foi assim que o outro, tímido, quieto, improvável, foi apresentado ao grupo de amigos. E amigos, quase sempre, são péssimos. Amigos praticam bullying com ficantes e peguetes dos membros do bando, amigos soltam as declarações mais polêmicas (sobre você) na frente de novatos, amigos testam até o limite aqueles que ousam adentrar aquela bolha tão específica, aquele círculo já traçado. Todos os amigos são assim? Não saberia explicar, afinal, ele não conhecia os amigos de todo mundo. Mas os amigos dele – os melhores! – eram todos assim.

Mas, apesar dos pesares, a noite foi mais do que agradável. Intimidado, o jovem rapaz se saiu super bem, foi acolhido, ficou horas deixando-se conhecer e sendo surpreendido pelo amigo mais inquisidor, mais resistente. Mas a noite, longa noite, avançava e ele (o personagem principal, não o novato) foi relaxando.

Por fim, apenas ele, o novato e o amigo inquisidor sentados numa mesa do Bar das Quengas. Nome propício, pensariam alguns. Nome infame, bradariam outros. Um nome, apenas um nome, nem mesmo esboçariam tantos outros.

E uma eletricidade no ar. Arrepios ao encarar os olhos, pau duro apenas num esbarrão de pernas. Tesão, apenas ele.

O amigo, o bom amigo, o melhor amigo, o mais sutil dos amigos, é sagaz e discreto: “É, tenho de ir. AGORA!”

Os dois ali, sentados, sem ter o que dizer, apenas a olharem-se, desejando-se.

E a noite, tão longa noite, chega ao fim. Porque, ao acordar, naquela cama que não era a sua e nem dele, com ele ao seu lado, ele só pensaria: Sonho? Realidade? Ou apenas a vida, sempre ela, a lhe pregar uma peça?

Não saberia a resposta. Ninguém saberia. Porque ele pode ou não existir e esse texto, letras e sinais gramaticais, acaba aqui. Já a vida, a real ou imaginada vai seguindo seu fluxo, sem se preocupar com certo e errado, com pontos ou vírgulas, interrogações ou exclamações.

E, pra que um ponto final se eu posso usar reticências?

(…)

“Teus sinais me confundem da cabeça aos pés
Mas por dentro eu te devoro
Teu olhar não me diz exato que tu és
Mesmo assim eu te devoro…”
Te Devoro (Djavan)


Pra Não Dizer Que Não Postei Um Conto

18/05/2010

Porque de vez em quando é bom exercitar o meu lado dramaturgo (A-ham, Claudia, senta lá!). Um pequeno conto que, se não fosse publicado aqui, ficaria guardado pra sempre na minha pasta Meus Documentos.

Aqueles Dias Inesquecíveis…

Daqueles dias, o que mais ficou na memória foram os tempos passados na Casa da Tia Sônia. Forçando a mente, revivendo momentos, consigo até mesmo sentir odores e sabores daqueles dias inocentes passados no interior, onde as horas se arrastavam e tudo era inocente e juvenil. E Tia Sônia, claro, com seus olhos risonhos e sua frase sempre repetida: Juízo, menino, juízo.

A pequena propriedade, não um sítio ou um rancho, mas uma casa no meio do campo, com muito espaço à sua volta, ficava no interior e era comum passar dias lá nas minhas férias. Ver e rever os primos, jogar bola no campinho, subir nas árvores e comer fruta direto no pé, nadar livre no rio límpido de águas ora calmas ora traiçoeiras.

Naquele verão específico, tudo era diferente. O moleque dava lugar ao rapaz, as espinhas brotavam no rosto e os desejos afloravam. A filha da vizinha de Tia Sônia deixara de ser inoportuna e passara a ser atraente. Os primos comentavam sobre as formas adquiridas pela garota e eu apenas ouvia calado. O garoto da cidade grande era o mais bobo dos primos e eu naõ gostaria de ser motivo de chacota. Enquanto todos já tinham aventuras, eu apenas imaginava o que seria viver todas aquelas histórias.

Numa tarde de calor insuportável fomos todos para o rio de águas geladas. Ponto de encontro de todos  na região, o rio era como se fosse a praia daquelas pessoas. Por obra do destino, ou não, Glorinha estava lá naquele dia. Eu não disse isso antes, não é mesmo? Glorinha era o nome dela. E Glorinha tinha a capacidade de me deixar ainda mais mudo, pois eu sempre gaguejava quando em sua companhia.

Enquanto todos se divertiam, eu fiquei sentado naquela pedra, pensando na vida, nos afazeres, no que me esperava quando finalmente retornasse à minha vida cotidiana na cidade. E foi assim que ela se aproximou devagar, sem que eu nem mesmo reparasse em sua presença. Quando me dei conta, ela já estava no meu lado, olhando para minha cara perdida e com um ar zombeteiro no rosto.

Como ela era linda, meu Deus! E como eu era idiota. Não fui sequer capaz de formular uma frase, de me fazer entender. Lembro apenas de falar algo estúpido como ‘que dia quente, não é mesmo?’. Glorinha do meu lado e eu falando do tempo. O que me consola é que eu amadureci e aprendi a ser menos bobo nessas horas. Mas ali, naquele dia, eu fui bobo. O que eu não sabia é que ela tinha um plano.

Sem dizer nada, Glorinha me puxou pela mão e, quando gaguejei alguma coisa, perguntando para onde estávamos indo, recebi de volta apenas um ‘Psiiiu’. E, claro, a segui. Pelo trilho na mata fomos parar numa campina de árvores esparsas, mas cujas folhas produziam sombras aconchegantes. Subitamente, Glorinha parou em minha frente, jogou os braços em meus ombros e, sem cerimônia, disse: ‘Me beija, vai! Eu sei que você quer!

Lembrando hoje disso, vejo que não foi nada romântico nem mágico como visualizei naquela época. Lembro-me de repassar a cena dias e dias e de suar muito em cada vez que me recordava do que havia acontecido. Os lábios quentes, a pele macia, os cabelos bagunçados. E eu ali, dando meu primeiro beijo.

E tão impetuosamente como começou, o beijo acabou. E ficamos ali, olhando um para o outro, sem saber o que fazer. Até que ela, sempre ela, me puxou pelas mãos e voltamos pela trilha até a pedra no rio onde eu fiquei olhando para o nada e ela foi mergulhar com o resto das pessoas.

Por causa daquele beijo eu me tornei invencível. Fui o melhor no jogo de futebol, ganhei três partidas seguidas de purrinha e contei até mesmo piadas.

Mas a cara de Tia Sônia e seu olhar de quem sabia o que tinha acontecido me deixou angustiado e, ao mesmo tempo, orgulhoso de mim. Poxa, eu tinha beijado a Glorinha! Na hora de dormir, o beijo de boa noite de sempre e as palavras divertidas da boca de Tia Sônia: Juízo, menino, juízo.

Hoje, passado tanto tempo, é do olhar divertido de Tia Sônia do que mais tenho saudade. O único beijo em Glorinha se foi, os dias no campo também. Mas o que Tia Sônia representava, seu olhar, seu abraço, sua comida, ah, isso eu nunca vou conseguir esquecer…

“Quando me sinto assim
Volto a ter quinze anos
Começando tudo de novo
Vou me apanhar sorrindo…”
15 Anos (Ira!)


Rotina

27/05/2009

porta-1“I should’ve drove all night,
I would’ve run all the lights
I was misunderstood
I stumbled like my words,
Did the best I could
Damn! Misunderstood.
Intentions good!!”
Misunderstood (Bon Jovi)

Levantou-se da cama e ficou admirando o outro corpo nu, adormecido sobre os lençóis de algodão. Colocou os óculos, ajeitou o cabelo e pensou:

-Putaqueopariu! Por que eu sempre me arrependo no dia seguinte de pegar esses jaburus? Maldita cerveja!

Foi até o banheiro, tomou um banho e só desejava que quando voltasse ao quarto ele já não estivesse mais lá. Mas não, as pessoas não são práticas; pelo contrário, são muito óbvias.

-A água estava boa, gostosão? Eu queria tomar um banho antes de sair.
–o outro lhe disse assim retornou ao quarto.
-Não, está gelada! Não tenho chuveiro elétrico. Melhor você tomar um banho em casa. –ele respondeu, já desejando que aquele estranho, cujo nome já nem mais se lembrava, fosse embora o mais rápido possível.

O outro fez uma cara de poucos amigos mas mesmo assim se levantou e veio em sua direção com os braços abertos, provavelmente esperando um abraço, do qual ele se desviou sem pestenajar. Sentiu nojo. As pessoas tinham cada idéia! Ele já havia feito sua boa ação, já havia transado com aquela criatura que à noite lhe parecera interessante, mas que agora, na luz do dia, apenas lhe causava repulsa.
Sem ter muito o que fazer então, o outro se vestiu rapidamente e pegou o caminho da rua, deixando antes, sobre a cômoda, um papel anotado com seu número de telefone.

-Me liga!
o outro disse.
-Sonha com isso!ele pensou.

Fechou a porta, deitou na cama, olhou para a camisinha usada no chão, para as roupas largadas, para o copo d’água ao lado do vidro de comprimidos. Levantou, pegou um, tomou junto com a água; tinha de agir antes da dor de cabeça voltar.
E tudo termina exatamente como começou… Um novo dia, uma nova promessa; o mesmo enredo. Ele não tinha jeito, era sempre assim. Será que um dia aprenderia?

Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 10/05/2009, cujo tema da semana era ‘…e tudo termina exatamente como começou…’.
Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


O Último Beijo

18/05/2009

lastkiss“I lifted her head, she looked at me and said;
‘Hold me darling just a little while.’
I held her close I kissed her – our last kiss,
I found the love that I knew I had missed.
Well now she’s gone even though
I hold her tight,
I lost my love, my life that night.”
Last Kiss (Pear Jam)

Se beijaram longamente.
Sabiam que seria o último beijo e queriam aproveitá-lo ao máximo.
E era realmente o beijo perfeito:  um dia de céu azul, sem nenhuma nuvem. Uma tarde de outono, temperatura amena e agradável.  Os pássaros cantando naquela praça que tantos beijos havia presenciado.  E aquela música ao fundo: Last Kiss. Pelo menos esse último beijo deles não era por um motivo tão trágico quanto o da música, mas era também muito doloroso.
Se conheciam desde a infância.  Crescerem juntos, brincavam desde que se entendiam por gente, estudaram na mesma escola.  Na adolescência, descobriram-se.  O primeiro beijo, o primeiro toque, a primeira transa.  De amigos a ficantes, de ficantes a namorados, de namorados a namorados-amigos.
Mas agora eles teriam de se separar.  Era o último momento, o último beijo.
Ele acabara de se formar e havia recebido uma proposta de emprego irrecusável na Espanha.  Seria engenheiro na sede de uma empresa de alimentos.  O pedido de casamento veio logo que soube que havia sido escolhido para o emprego.
Mas ela não aceitou.  Teve medo de largar a família, sua cidade, sua vida. Preferiu abrir mão do seu grande amor.
Ele ficou bravo, gritou, xingou.  Achou que tudo havia sido em vão.  Pensou em desistir de tudo, do sonho, só para ficar com ela.  Mas foi convencido pela família a aceitar a proposta.
Naquela manhã, acordou angustiado.  Seu vôo para Madrid seria no dia seguinte logo cedo e a saudade já era imensa em seu peito.  Ligou pra ela, marcou o encontro.  E estavam ali, na praça, apreciando seus últimos momentos.
E uma pequena lágrima escorreu pela face deles.
De quem foi?  Não saberia dizer.
Talvez fosse dele.  Talvez fosse dela.

Continho achado numa pasta quase esquecida de Meus Documentos.
Espero que sirva de distração.
Boa semana!


Sonhos

06/05/2009

sonhos“Mas não tem revolta, não
Eu só quero que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom
Que eu tenho em mim…”
Sonhos (Paula Toller)

Vou te falar, adoro essa música! Ela mexe comigo, com meus sentimentos.
Peninha, né? Ele era o cara!
Ah, é Paula Toller cantando agora? Tá na moda essas regravações, eu sei. Mas a versão original era com o Peninha. Mas eu era bem jovem naquela época. Se bem que os clássicos são os clássicos, a gente vai sempre escutar, não importa quando, seja com o Peninha, seja com a Paula Toller. Seja com a Sandy, vai saber!
Aumenta um pouquinho? 
Linda, linda, linda música!
Poxa! Nunca tinha reparado na letra. Tipo, gostava da música, da melodia, cantarolava o refrão, mas nunca tinha reparado na letra. Que linda! 
Ah, desculpe, eu me emociono. Essa minha fase tá uma merda. Qualquer coisa me faz derramar lágrimas. Mas eu tô bem sim, muito bem. A culpa não é sua, relaxa!
Te entendo, eu sei que não era o nosso tempo, que você precisava de espaço, sei de tudo isso!
Você tá certa, eu sei! Se é pra ser, um dia vai ser!
Olha essa parte, que linda! É o refrão! É igual ela tá falando, né? ‘Amanhã será um outro dia’. Verdade isso! Amanhã é um novo dia…
Ah, me deixa cantar! Por que você SEMPRE tem de me censurar?
Você tem que me falar uma coisa? Que coisa?
Hum… Fala então, to te escutando…
Se eu quero que você seja feliz? Óbvio que quero, você é a pessoa que mais me fez feliz! ‘Eu só quero que você se encontre!’ E quem sabe um dia tudo não possa voltar a ser como era antes, né?
O quê? Outra pessoa? Você tem outra pessoa?
Mas você terminou comigo tem um mês dizendo que tava sem tempo pra se dedicar e agora vem me dizer que tá envolvida com outra pessoa?
Que porra é essa???
Calma??? Você vem me pedir calma agora???
Eu vim aqui todos os dias, esperando uma nova chance, bancando o idiota… E você tá envolvida com outro???
Você é uma vadia, sabia? FILHADAPUTA! Isso sim!
Gosta de mim? Gosta de mim coisa nenhuma, sua, sua…
Ah, quer saber? Me esquece!!! 
E desliga essa merda de música! Essa letra é ridícula, a melodia é chata, é tudo uma merda!
Tudo bem, tudo bem, estou indo embora. 
Ei, não precisa me empurrar! 
EU NÃO TÔ GRITANDO!
QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA BATER ESSA PORTA NA MINHA CARA???

Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 19/04/2009, cujo tema da semana era Ilusões.
Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


Quadrilha Pós-Moderna

15/04/2009

poligamia“Vamos ficar, vamos fazer
Vocês e eu, eus e você
Vamos gozar, vamos viver
Vocês e eu, eus e você…

Poligamia (Kid Abelha)

 

Heleninha se depilou, tomou aquele banho demorado, se perfumou e escolheu uma lingerie bem provocante. Enquanto isso, no mesmo banheiro, Augusto fazia a barba.

-Nervosa, Heleninha?

-Um pouco só… Mas vai ser bom! Eu acho! Espero, na verdade!

-Calma, Heleninha! Vai dar tudo certo! Tudo foi acertado.

 

Suelen e Mario estacionaram o carro e ficaram um bom tempo conversando antes de se encaminharem para dentro do restaurante.

Haviam repassado seu texto juntos e se julgavam perfeitos.

 

O jantar foi regado a vinho e a conversa, que começou tímida e formal, já tinha um clima de putaria total.

Heleninha, sentada ao lado de Augusto, por debaixo da mesa acariciava o pau de Mário com os pés, que não via a hora de terminarem aquela experiência num motel.

E lá foram eles.

 

No motel, Heleninha beijava Augusto, que beijava Suelen, que beijava Mario, que beijava Heleninha, que beijava Suelen, que beijava todo mundo.

Roupas no chão, corpos suados e uma loucura sem fim.

Extasiados, agradeciam a invenção das salas de bate papo.

 

Na noite seguinte, em sua cama de casal, Suelen e Mário se acariciavam e o tesão dominava o quarto.

Mário beijava o pescoço de Suelen, descia para seu seio, seu barriga e continuava descendo…

E Suelen gemia…

‘Augusto… Augusto…’

 

Na outra casa, Augusto e Heleninha tentavam novas posições.
Heleninha vestia uma calcinha com consolo e dominava o marido que só pensava em como não conseguira tirar os olhos do pau de Mário na noite anterior…

 

Na manhã seguinte, vida normal.

Afinal, nem só de putaria vive a humanidade.

Será?

 

Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 29/03/2009, cujo tema da semana era Troca de Casais.
O Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.

 


Um Dia Daqueles

08/04/2009

“Reach down your hand in you pocket

Pull out some hope for me

gatopretoIt’s been a long day,
Always say ain’t that right

And no lord your hand want stop it

Just keep you trembeling

It’s been a long day,
Always say ain’t that right…”

Long Day (Matchbox 20)

 

Abriu os olhos sobressaltado.

Nem mesmo o barulho insistente do despertador fora suficiente para acordá-lo.  Mas as batidas incessantes de seu pai à porta o trouxeram de volta das mãos de Morfeu.

Levantou-se, vestiu-se às pressas.  No espelho do banheiro, enquanto escovava os dentes, contemplou seu rosto:  jovem, mas uma expressão de cansaço presente, nítida.  Não lembrava mais aquele jovem cheio de vida de tempos atrás.

Engoliu rapidamente o café, queimou a língua, quase caiu da cadeira ao se levantar.

Pegou suas chaves e foi pro carro.  Virou a chave.  Nada.  Motor afogado. 

Gritou um palavrão.  Já estava atrasado.  

Pegou uma carona com seu pai e teve de ficar ouvindo uma rádio AM que tocava apenas músicas sertanejas.

No caminho até o trabalho pensou em tudo o que tinha de fazer e ficou mais desanimado ainda.  Chegou atrasado e ouviu a piadinha característica do chefe:

-Boa tarde, rapaz!

Abriu sua caixa de e-mail: correntes, propagandas e um e-mail da namorada que abriu correndo:

Cansei do nosso namoro.  Vc é uma pessoa muito difícil.  Acho melhor que não me procure mais.

 

Término de namoro por e-mail com três frases. Realmente algo não estava bem.  

Pensou até em ler seu horóscopo no jornal, mas desistiu.  Lembrou-se de Murphy.  Era melhor não arriscar.

O dia transcorreu da pior forma possível.  

Tudo, exatamente tudo que poderia dar errado (e o que não poderia também) deu: o computador foi infectado por vírus, teve que atender um cliente insuportável que ficou reclamando por 2 horas sobre prazos não cumpridos, o ar-condicionado quebrou num dia de calor infernal.

No caminho de volta para casa, quase foi atropelado por uma bicicleta e foi assaltado por um pivete, que levou os R$ 10 que ainda tinha no bolso.

Sua casa estava completamente às escuras, parecia que não havia ninguém.  Abriu a porta, acendeu a luz e essa não acendeu. Teve de ouvir sua mãe brigando com ele e o acusando de ter esquecido de pagar a conta de luz do mês anterior e agora a luz havia sido cortada.

Definitivamente, era melhor esquecer aquele dia.  Tomou o banho frio (odiava banho frio, mas sem luz, o que fazer?) e foi se deitar.  No escuro do quarto, pensou apenas que aquele dia horrível havia acabado.  Nada mais podia dar errado.

TracK.

Estava no chão.  A cama havia quebrado.