Metáfora

19/06/2009
mascara

“Diga, quem você é, me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida
Tira a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro, jeito de ser…”
Máscara (Pitty)

Abri o velho baú há muito não utilizado e olhei para tudo aquilo que há tanto não via. Revirei os velhos pertences e achei o que procurava, o que  necessitava para o momento: a máscara.
Ela era perfeita: um meio sorriso cínico que dava um ar de simpatia e que provavelmente evitaria as insuportáveis perguntas que não aguento mais responder. Afinal, a cada ‘como você tá, tudo bem?‘ que ouço, tenho vontade de gritar e dizer que não, não estou bem, que sei que vai passar, mas que não quero ficar pensando nisso.
Parei na frente do espelho e coloquei a máscara. Imediatamente me senti uma nova pessoa. A máscara surtiu efeito até para mim. Eu estava ali, sorrindo, feliz, tudo estava bem. O bom e velho Autor, bem humorado, divertido, relaxado, estava de volta.
A vida continuava, traumas superados.
E se por debaixo da máscara as coisas não são bem assim, ah, isso não importa! A gente é a imagem que a gente vende.
Essa máscara é realmente muito boa… Não importa se por baixo dela estou vertendo lágrimas; com ela, todos vêem apenas o sorriso.
Um sorriso torto, cínico. Um sorriso falso.
Afinal, a vida nem sempre é o que parece. E de porrada em porrada a gente aprende. Ou finge aprender.

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Sobre a Nossa Finitude

12/06/2009

luto“É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando eu me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais…”
Love in the Afternoon
(Legião Urbana)

Meu avô faleceu na última quarta-feira.
Não era esperado, mas também não nos pegou totalmente desprevenidos. Ele tinha 76 anos e tinha sofrido dois derrames na última semana. Estava internado no hospital, mas seu quadro era estável.  Até que na quarta-feira ele não acordou; amanheceu morto.
Eu estava a caminho do trabalho quando minha mãe ligou me avisando e tive pouco tempo para sair do Rio, passar em Petrópolis e seguir em direção à cidade dos meus pais.
Foi estranho demais; não gosto de velórios.
Eu não era muito íntimo do meu avô, mas também não era distante. Tínhamos uma relação cordial, apesar da diferença de idades. Eu sou o neto mais velho dos meus avós paternos, mas apesar disso nunca fui o mais mimado, já que sempre fui muito independente e cabeça dura. Mas não pude conter as lágrimas ao me dar conta de que não veria mais meu avô sentado em frente ao portão da casa dele, jogando conversa fora, rindo com os amigos e me dizendo pra não estacionar o carro em frente da casa daquele vizinho insuportável.
Mas, ver minha avó sendo tão forte foi um consolo. Lembro-me dela me abraçando, chorando e dizendo que meu avô tinha muito orgulho do neto que tinha.
Dirigindo de volta para Petrópolis, depois do enterro, estava pensativo. Em como a vida é curta, em como tudo é passageiro. Hoje acordamos cheios de certezas que se vão numa velocidade impressionante. Pensava no meu avô, mas pensava em mim, em nós que aqui ficamos.
E, com tanta coisa ruim acontecendo, chorei feito criança enquanto dirigia.
Chorei por meu avô. Chorei por minha avó. Chorei por meu pai.
E chorei por mim, pelas minhas perdas. E prometi que por mais que tudo esteja doendo, não vou permitir que morra um pedaço de mim.
Afinal, a vida sempre segue seu curso. E não temos tempo para juntar os nosso pedaços.


O Novo Coordenador

09/06/2009

nerd“Ah, todo chato é bonzinho
Nunca nos faz nenhum mal
Ah, todo chato é calminho
Como se faltasse sal
Ah, todo chato te conta
Onde passou o Natal
E sempre te da um dica
De onde ir no carnaval…”
O Chato (Oswaldo Montenegro)

Almoço com outros três Consultores Comerciais da minha empresa, num total de duas meninas e dois rapazes (eu, um dos rapazes, claro).
Nosso assunto preferido? O nosso novo coordenador.
Para terem uma melhor idéia, deixem-me explicar como funciona a empresa, o que por si só é uma coisa meio doida. É uma empresa pública de abrangência nacional. Somos todos empregados públicos, entretanto, regidos pela CLT. Uma vez que se ingressa na empresa, por concurso público dentro do seu cargo, você pode ascender fazendo processos seletivos internos, como o que eu fiz para Consultor Comercial. Na mesma época do meu processo seletivo tinham outros três abertos, para funções específicas, entre elas, para o de Coordenador Comercial, que teoricamente, é o chefe dos Consultores. Mas tem um porém aí: os Consultores ganham mais que o Coordenador. Na prática, um Consultor tem uma carteira de grandes clientes e vira uma babá desses clientes, devendo cuidar deles para que tudo funcione e eles continuem satisfeitos e utilizando a empresa. O Coordenador tem também uma carteira de clientes, mas que é infinitamente maior do que a de um Consultor (só como exemplo, minha carteira tem 20 clientes, a do Coordenador uns 300), já que ele cuida de clientes de pequeno porte. Mas, convencionou-se, que o Coordenador também seria o chefe imediato dos Consultores. Entenderam a zona? Alguém que ganha menos que você acaba achando que é seu chefe (o que não é na prática).
Pois nosso adorável Coordenador fez o mesmo processo seletivo que nós fizemos para Consultor e passou em último lugar (e não foi chamado) além de fazer o de Coordenador.
Detalhe, todos nós sabemos que ele ficou em último pra Consultor, já que a lista de aprovados é divulgada nos meios de comunicação da empresa. Detalhe dois: ele não tem experiência nenhuma na área comercial, NENHUMA mesmo.
E o cara chegou botando banca. Só que ele encontrou uma equipe que cagou e andou para ele e não o leva a sério. A banca durou dois dias já que ele ficou desesperado com a demanda de trabalho com a qual ele não sabia lidar.
Agora, aos poucos, vamos descobrindo várias coisas sobre ele. Nosso chefão, diretor da ‘filial’ que trabalhamos é reconhecido como difícil de se lidar, mas o cara é foda, cheio de contatos e com uma fama de conseguir sempre o que quer. Eu mesmo, estava temeroso de trabalhar com ele. Nosso querido Coordenador, quando convocado para assumir sua vaga, não foi convocado para nossa filiar e sim para uma outra, considerada um dos melhores lugares para se trabalhar e aprender, já que é numa área central, com uma grande equipe qualificada. O que ele fez? Pediu pra ir pra nossa filial, já que seu sonho era trabalhar com o nosso chefão. Mas ele não sabia onde estava se metendo.
Visualizem meu Coordenador: baixinho, magrinho, de óculos, aparelho, crente com cara de crente, 25 anos com cara de 30 e poucos, casado tem alguns meses com a segunda namorada (ambos casaram virgens) e, segundo ele mesmo diz, aficcionado por planilhas do Excel.
Nosso chefão é osso duro de roer, maçon e a gente brinca na empresa que existem dois grupos que alternam o poder na empresa, sendo um deles o da Maçonaria.
Eis que outro dia, quando perguntado qual era sua religião, nosso Coordenador respondeu que não era uma religião como as que estamos habituadas e sim uma organização que visa fazer o bem e acabar com uma instituição diabólica que quer dominar o mundo.
Nossa conclusão do almoço? Ele tinha o sonho de trabalhar com nosso chefão para descobrir outros membros da Maçonaria, matá-los e assumir o poder.
Tadinho do meu Coordenador… Tão ingênuo! Mas que sempre diverte nossos almoços!


Pensamentos Insones

05/06/2009
coração “Não quero causar impacto
Nem tampouco sensação
O que eu digo é muito exato
E o que cabe na canção (…)
Eu não sei viver sem ter carinho
É a minha condição
Eu não sei viver triste e sozinho
É a minha condição…”
Condição (Lulu Santos)

Rolou para um lado e para o outro da cama. Não conseguia dormir, a cabeça não parava de pensar, buscava por respostas para perguntas que não faziam sentido.
Lembrou das promessas, dos sonhos, dos risos e das lágrimas. De algo tão perfeito que agora não existia mais.
Quando tudo aquilo se perdeu? Onde exatamente deixou de fazer sentido? Seria tudo ilusão de sua cabeça, criara aquilo tudo sozinho?
Não, não mesmo! Ele tinha as provas, ele sabia que baixara a guarda e que embarcara naquilo porque tinha certeza de que não estava sozinho.
Logo ele, que sempre fora descrente, que sempre ficava com os dois pés atrás… Abrira a guarda, mergulhara de cabeça e, por um capricho do destino, estava agora naquela situação, sem chão.
Pensou então numa frase ouvida de um personagem de um filme, algo mais ou menos como ‘…a pessoa por quem a gente se apaixona é sempre uma invenção!’ Seria mesmo? Ele achava que sim. Ele criara uma pessoa imaginária tendo por base uma pessoa real. Uma pessoa confusa, jovem demais para que ele esperasse tanto. Por que fora tão descuidado? Por que apaixonara-se?
E era tão fácil saber essa resposta. Com ele faltava-lhe fôlego, o coração saltava, o riso era fácil. Com ele, dias chuvosos era perfeitos para se ficar em casa e dias ensolarados os mais belos da semana. Com ele, um filme era mais divertido e a comida mais gostosa. O abraço era terno e o sexo cúmplice. Com ele, descobriu o significado de realmente amar alguém.
Mas agora tudo eram lembranças e só o tempo diria como ficariam, se é que ficariam. Tinha esperanças ainda de que tudo se acertasse, mas tinha o pé no chão. Aprendera a não esperar demais das pessoas para não se machucar. Se tivesse de ser, tudo bem. Se não, a vida seguiria o seu rumo e ele encontraria o seu.
Seu único medo era que aquilo tudo que estava vívido em sua lembrança com o tempo se apagasse. Conhecendo-se tão bem, sabia que sua tendência seria ir matando esse sentimento procurando os defeitos, maximizando as falhas, polarizando o que não tinha sido bom. No final, restaria uma sombra de lembrança de algo que poderia ter sido e não foi. Uma promessa não cumprida de um sonho não realizado.
Mas ele queria fazer diferente. Aquilo tudo não havia sido em vão. Ele vivera, ele aprendera, ele crescera! E tinha consciência de que conhecera umas das melhores pessoas do mundo, alguém para a vida inteira e por quem ele sempre teria carinho.
Virou para o lado, se arrumou embaixo das cobertas e continuou a avalanche mental até que pegou no sono, sem mais nem menos.
E, olhando-o ali, deitado naquela cama, parecendo tão sereno, ninguém diria que estava despedaçado por dentro.


Cenas Cariocas

01/06/2009

Carioca“Cariocas são bonitos,
Cariocas são bacanas
Cariocas são sacanas,
Ccariocas são dourados
Cariocas são modernos,
Cariocas são espertos
Cariocas não gostam
De dias nublados…”
Cariocas (Adriana Calcanhoto)

Primeiro dia de trabalho no Rio.
Hora do almoço, aniversário de uma nova colega de trabalho.
Pra fazer uma social vamos todos almoçar juntos num restaurante.
Pedidos feitos, o garçom pergunta:

-E pra beber?

Eu já ia dizer:

-Uma coca, por favor!

Mas fui impedido. Todo mundo pediu chop.
Chop, na hora do almoço, durante o expediente.
E fui reparar nas outras mesas. Todo mundo engravatado ou vestido social. Sobre as mesas: chop.
Adoro o Rio de Janeiro!

Terça-feira, 26/04, hora do almoço.
Na dúvida entre o que comer, minha amiga Gi e eu decidimos encarar o KFC.
Nosso trajeto consiste simplesmente em atravessar o largo do Machado, dobrar à direita e seguir em frente, coisa de 3 minutos, no máximo.
Nós dois distraídos, papeando e surge, do nada, um rapaz por volta dos 30 anos na nossa frente, segurando sacos de jujuba.

-Que casal mais lindo! Ela parece com a Glória Pires e você com o Brad Pitt! –ele diz.
-Não precisa forçar a barra pra vender as jujubas, rapaz! –eu digo.
-Que nada, o casal é tão simpático que eu não vou nem vender, vou dar as jujubas para vocês! Ninguém me compra essas porras mesmo!
-Não precisa, não gosto de jujuba. –diz a Gi.

Isso ele segurando a gente na calçada, não nos deixando continuar nosso trajeto.

-As balas são de vocês, faço questão! E não quero dinheiro por elas! Mas agradeceria imensamente se pudessem pagar o meu almoço, pois a luta é dura para pessoas como eu que não consigo vender as jujubas para comprar o almoço.
-Quanto é a jujuba, rapaz? –eu pergunto.
-Não! As jujubas são de vocês, presente meu! Mas se puder me dar R$ 5, eu agradeço.

Então tá então, né?

Estação do Metrô Largo do Machado, horário do almoço.
Eu indo para Botafogo almoçar com uma amiga, mas com um tempinho de sobra, caminhando devagar observando aquela correria habitual do metrô.
Última quinta feira do mês, algumas pessoas distribuindo uma revistinha Metrô Rio, divulgando o trabalho da empresa quando fui abordado por uma mocinha que me deu uma revista e perguntou:

-Você podia me ajudar, heim? Preciso tirar foto entregando a revista pra alguém, mas é uma correria danada, ninguém tem tempo e eu preciso fazer o seu trabalho. Posso tirar a foto contigo?
-Claro, eu tô em horário de almoço, te ajudo.

Ela chama o fotógrafo (bonitinho demais) e tira a foto me entregando a revista. O fotógrafo vira pra ela e diz:

-Você é esperta, só escolhe bonitinhos pra tirar as fotos com você, heim?
-Ah, claro! Por que você acha que minhas fotos saem quase todo mês na revista?

Eu fico rindo da situação surreal, quando o fotógrafo vira pra mim e diz:

-Ela te deu o cartão dela? Claro que não, ela não tem cartão! Mas eu tenho! E sinta-se à vontade para me ligar! Adorei te fotografar!

Eu saio em direção ao embarque rindo daquilo. E com o ego nas alturas, é claro.