O Preconceito Nosso De Cada Dia…

30/05/2008

Eu trabalho numa empresa de abrangência nacional, que tem milhares de empregados.

Somente no local onde trabalho somos mais de 50 funcionários, divididos entre alguns setores.

Por um acaso do destino trabalho numa área intermediária, entre a base e a chefia.

Na minha sala, especificamente, sou o mais novo, o único com menos de 30 anos. Aliás, no meu andar inteiro, sou o mais jovem.

Entretanto, num outro setor, da base da empresa, eu tenho dois bons amigos (os de uma história de uns posts abaixo, sobre o amigo que queria ter uma filha) e nos damos muito bem, inclusive por sermos da mesma faixa etária.

Dias atrás estava no setor deles jogando conversa fora quando um outro rapaz, que é normalmente muito simpático comigo parou e se juntou à conversa. Não lembro exatamente o assunto, mas ele começou a contar que estava com uma amiga fazendo um lanche e chegou um grupo de amigos da moça e, como ele não os conhecia, ficou apenas ouvindo a conversa enquanto comia. No final ele falou que achou um absurdo a amiga dele, bonita, perder tempo com aqueles amigos viados e cabeleireiros que ficaram falando de término de namoro com outros viados… Onde o mundo vai parar? Um absurdo isso!

Fiquei ouvindo ele falar essas coisas e perguntei se ele realmente pensava isso.

Sua resposta? Claro que penso! Comigo viado tem que ser tratado na porrada! Raça maldita!

Sabe quando você cria uma antipatia imediata para com uma pessoa?

Não pude deixar de pensar: e se ele soubesse que eu, com quem ele bate altos papos sobre diversos assuntos, com quem já almoçou algumas vezes, que tenho um cargo superior ao dele e ganho bem mais, sou um desses viados malditos que devem ser tratados na porrada?

Como entender um preconceito tão idiota como esse por algo que a pessoa nem mesmo conhece? Aliás, por que a vida alheia pode incomodar tanto?

Por que a minha orientação sexual, a cor de beltrano, a religião de sicrano pode gerar tanto ódio em outras pessoas?

O problema está comigo, um dos viados malditos? Está no negro? Está no judeu?

Acredito que não.

Acredito que o problema esteja na cabeça e nos atos de gente tão hipócrita.

Não vou me esquivar, me colocar num pedestal e dizer que sou perfeito, que não tenho preconceitos.

TODOS nós temos, não tem jeito.

Lembro até de uma frase que ouvi de uma amiga que ouviu de sua terapeuta tempos atrás, que é mais ou menos assim:

O preconceito é natural no ser humano. O que temos de fazer é a cada dia deixar pra trás alguns preconceitos e adquirimos novos e assim sucessivamente.

Fiquei pensando nisso um tempo e acho que consegui entender mais ou menos o que a terapeuta quis dizer.

No mais, tenho de dizer que realmente me senti agredido por aquele comentário.

É aquela velha história: a gente acha que o preconceito tá bem longe da gente, que é apenas assunto de livros e discussões acadêmicas.

Foda é quando isso vem pro nosso dia a dia e pode chegar até você. Mesmo que não diretamente.


Essas Coisas Que Se Passam Na Minha Cabeça…

28/05/2008

Esse lance de namorar homem é relativamente novo para mim.
M. é meu primeiro namorado e aos poucos vou me habituando com a dinâmica de um namoro gay.
Quando nos conhecemos eu não tinha idéia que as coisas caminhariam para um namoro, mas tudo foi acontecendo de forma tão natural, que chegamos no ponto onde nos encontramos.
O que eu não imaginava é que eu teria tanta insegurança.
Em todos os meus relacionamentos com mulheres eu sempre tive o controle da situação, sempre fui seguro o suficiente e, quase sempre, eu ditava o ritmo e o prazo de validade da relação. Até mesmo quando estava completamente apaixonado eu tinha minha cabeça no lugar e, apesar da minha ansiedade habitual, conseguia comandar a relação.
Com M. está sendo diferente. Eu, que comecei cauteloso, soltei as rédeas e mergulhei de cabeça no abismo e isso tem me apavorado bastante. No início tive mil dúvidas se era o que eu queria mesmo, mas agora sei que estou onde devo estar. Mas não consigo tirar da mente a idéia do ‘…e quando acabar…’.
M. e eu somos muito diferentes. Sou extrovertido, falante, intempestivo. Ele é mais quieto, centrado, racional e, como ele mesmo diz, nunca esquece o que lhe dizem. E eu, definitivamente, não consigo interpretá-lo.
Às vezes, me passam mil coisas pela cabeça, uma insegurança infantil de que a qualquer momento ele enjoará de mim e ganharei um belo pé na bunda.
Em outras ocasiões, normalmente quando estamos juntos sinto que ele realmente gosta de mim e que é melhor aproveitar cada momento, pois, como disse o poeta: ‘que não seja imortal, posto que é chama / mas que seja eterno enquanto dure…’.
E então, em dias como ontem, quando um baixo astral (possivelmente causado por uma gripe que começa a dar os sinais) toma conta de mim e uma melancolia me abate, sou acordado no meio da madrugada pelo celular avisando que chegou uma mensagem de texto que dizia:

“tipo, tenho algo pra falar: não posso afirmar que será pra sempre, mas hoje te garanto que você é o único homem que me interessa.”

O que fazer?
Relaxar. Dormir. E acordar pensando que achei uma agulha no meio do palheiro.


Fragmentos do Cotidiano (2)

26/05/2008

Pós-comemoração do niver do namorado no Cine Ideal.

Eu me sentindo um gato no dia (isso é raro, a síndrome de patinho feio reina aqui) e acho que as outras pessoas concordavam com isso.

Namorado e eu conversando um de frente pro outro e me passa um rapaz, pega a minha mão, coloca na bunda dele e me puxa.

Eu, estático, olho pro namorado e rio da situação absurda.

Namorado emburra a cara, mas continuamos lá, eu bebericando uma cerveja e ele uma coca.

O mesmo rapaz volta e novamente pega na minha mão, me puxando.

Namorado briga COMIGO e diz que eu dei condições para o cara fazer isso.

Como assim?

 

 

A mesma boate, o mesmo dia.

Dois amigos do namorado dançando juntos.

Um dos amigos querendo ficar com o outro amigo, que não queria pois estava de olho num terceiro amigo que iria chegar.

O amigo interessado dançando, puxando o amigo que esperava o outro pelo pescoço e eu só observando.

Falei pro namorado:

-O A. vai dar o bote no D., vc vai ver!

-Que nada, eles estão só dançando!

-Vc que dance assim com alguém pra ver se eu não te capo!

Nisso, o D., amigo que esperava o outro fez uma cara de pavor e me chamou pra ir ao banheiro.

No caminho, me disse:

-O louco do A. fica dançando e falando que sempre que dançamos quer me dar um beijo na boca!

-E pq vc não fica com ele? Não ta afim?

-Estou esperando outra pessoa, não vou ficar com ele assim.

 

 

 

Tarde de ontem, depois de um dia inteiro na praia fomos pra um rodízio de massas no Recreio.

PizzaS e massas diversas, o guloso aqui só comendo tudo.

O namorado nem falava, só mastigava e os amigos se divertiam num papo hiper descontraído.

Na mesa, seis pessoas: cinco homens e uma mulher, minha amiga de São Paulo.

Sem falsa modéstia, era a mesa mais bonita da pizzaria.

Com o detalhe que eram todos gays, tirando a minha amiga.

As garçonetes encantadas com um dos meus amigos, toda cheia de sorrisos.

Minha amiga fala alto, pra garçonete ouvir:

-Ai, amor! Eu venho de longe e vc fica dando mole pra garçonete?

Ele ri e a garçonete volta, pra perguntar o que a minha amiga tinha falado.

Ao invés de ficar sem graça, entrou na brincadeira, com um ótimo humor!

Adoro pessoas bem humoradas!

 

Ainda no rodízio, pizza de pepperone.

Eu, com toda minha erudição falo para o namorado que reproduz em alto e bom som:

-Pepperone nada mais é que um nome chique pro salaminho!

Gargalhada geral.

 

 

 

 

 


Fragmentos do Cotidiano (1)

15/05/2008

Conversa com uma amiga, a primeira a quem eu contei que era gay.

 

Ela: Marquei um encontro na sala de bate papo com um cara daí da sua cidade. Vou conhecê-lo na próxima semana, quando for te visitar.

Eu: É mesmo? Bonito?

Ela: Nem bonito, nem feio, mas pelas fotos é muito gostoso.

Eu: Hum… Que bom…

Ela: Mas quero que você o avalie antes de eu possivelmente vir a ficar com ele.

Eu: Eu? Por quê eu?

Ela: Pra você usar seu radar e me dizer se ele é potencialmente gay ou não. Depois que você contou e que conheci o submundo gay dos seus amigos, desconfio de todos!

 

Casa da avó, domingo dia das Mães.

Eu cantando uma música qualquer e o meu primo de 14 anos me acompanhando quando chega o irmão gêmeo dele e diz:

 

-Vocês deviam gravar um CD.

 

Nós dois rimos, felizes com o elogio a nossas belas vozes.

Quando ele completou:

 

-Assim, com o CD gravado, somente os loucos que comprassem a droga do CD teriam de ouvir essa cantoria que eu estou sendo obrigado a ouvir sem poder de escolha.

 


Devaneios de Edredon

13/05/2008

O frio intenso dessa cidade do interior algumas vezes me faz esquecer que estou no Rio, apesar de estar bem próximo da capital.

O vento gelado, a neblina, quase sempre a chuva.

E nesses dias o que o que eu mais queria era um abraço.

Distância é uma coisa foda, definitivamente.

E vou seguindo essa rotina: acordar cedo, trabalhar, voltar pra casa, teclar com o namorado no msn, assistir seriados e me enrolar no edredon enquanto o sono não vem.

E o problema é exatamente esse ‘enquanto o sono não vem’.

A cama espaçosa, os travesseiros, o cheiro, a lembrança, a vontade.

O namorado distante, pelo menos fisicamente. Mas sempre presente de alguma forma, seja por uma mensagem, por uma ligação, por uma conversa no msn.

A mente vagueia e eu me pergunto: ‘em qual momento eu me entreguei? Em qual momento eu baixei a guarda e me permiti viver isso de forma tão intensa?’

Não sei, não tenho resposta.

Pode parecer estranho, mas acho que desde o início eu sabia que isso iria acontecer. Não sei se foram as conversas iniciais ou a primeira vez que o vi sorrindo. Não sei se foi quando seus lábios tocaram os meus ou quando precisava muito de atenção e ele me aqueceu em seu abraço.

Só sei bem o que estou sentindo e a importância dele na minha vida.

E fico triste por não poder estar junto dele amanhã (quarta-feira) para comemorarmos juntos o seu aniversário.

Só posso garantir que pensarei bastante nele (mais?) e contarei os dias para estar junto com ele novamente nos meus braços num abraço apertado e cheio de carinho.


Pais & Filhos

08/05/2008

Dia das mães chegando e o filho pródigo vai passar o fim de semana em sua cidade natal.

Apesar de morar numa cidade próxima (uns 80 km de distância nos separam) eu odeio ir em casa.

Não pelos meus pais, mas sim pela cidade em si: pequena e que parece não ter nada mais a ver comigo. Não vejo identificação nenhuma mais com a cidade e nem sei como pude ter crescido e me formado por lá.

Não tenho amigos que moram lá, não tenho o que fazer na cidade e todas as vezes que vou, fico trancado na casa dos meus pais assistindo televisão ou filmes no dvd.

Minha mãe, é claro, faz sempre aquele drama: filho desnaturado, que não sente saudades, não aparece, está sempre longe.

O que nem é tão verdade assim pois, gostando ou não, eventualmente eu vou lá, nem que seja pra dar um beijo, comer comidinha de mamãe, dormir e voltar no dia seguinte pra minha atual cidade.

Mas dessa vez vou pra passar longos 3 dias em casa, mas, tenho de admitir, estou morrendo de saudades deles.

Meus pais são uns amores e sempre fizeram o possível e o impossível por mim.

Se eles sabem?

Nunca falei e nem pretendo. Acho desnecessário.

Sempre me viram namorando mulheres e, agora que estou morando em outra cidade, não sabem com quem eu saio ou deixo de sair.

Se desconfiam?

Não sei. Mas são pais e, segundo dizem, conhecem bem os filhos. Não sou afeminado, nem tenho trejeitos, me visto como homem e sou homem. Então não posso dizer se eles desconfiam de mim ou não.

O que mais me chatearia se eles soubessem seria o fato de que sofreriam com isso, se culpariam e se martirizariam. Culpa de sua formação religiosa.

Estava assistindo esses dias um episódio de Queer as Folk, a série com temática gay e vi o relacionamento de um dos personagens com a mãe que sabe e aceita o filho gay e da mãe que está descobrindo agora que seu filho adolescente é gay. Acho que minha mãe faria um drama tremendo, afinal ela é a rainha dos dramas (Oscar pra ela!).

Mas como não levanto bandeiras, nem quero expor demais minha vida, prefiro ficar na minha, vivendo desse meu jeito.

Eles não perguntam e eu não falo nada.

Se é a melhor forma?
Não sei, mas é o jeito que vivo e estou bem assim.

Pra que mais?

Amo meus pais e sou amado por eles.

E acho que isso basta.


O 1º Mês

05/05/2008

Fim de semana de calmaria, daqueles em que o máximo feito foi ficar em casa, jogado no sofá, assistindo televisão e esperando a hora passar.
Acompanhado do namorado então, nada melhor.

Aliás, eu adoro fazer nada acompanhado do meu namorado preguiçoso. Só ficar deitado, abraçadinho, assistindo televisão ou cochilando, quer coisa melhor?
E hoje é um dia especial para nós: fazemos um mês de namoro.
Eu, que nunca pensei em namorar um homem, tô encarando isso super bem. A palavra NAMORADO deixou de ser tão pesada e hoje apenas me remete ao sorriso encantador do meu namorado (quantas vezes uso essa palavra, putz). Também, comecei bem, em grande estilo, com um cara super do bem e que eu costumo comparar à agulha no palheiro.

Nesse um mês tanta coisa aconteceu. Entrei de cabeça nessa relação, troquei de apartamento, passei a morar sozinho, enfrentei alguns revezes profissionais. Foi um mês intenso, mais inteso que muitos anos.

Mas tive o namorado do meu lado, me apoiando, me dando bronca, me incentivando e instigando.

Tá bom demais, só isso. Não tenho a pretensão de que será eterno, mas parafraseando o poeta, espero que seja infinito enquanto dure (e vai durar muito, tenho certeza!).
Enfim, um post inteiro praticamente falando sobre o namorado e nossa relação. Mas tudo bem, né? Afinal, não é todo dia que se faz um mês de namoro.
Abraços